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C. G. JUNG E O GNOSTICISMO

C. G. JUNG E O GNOSTICISMO

 

Entre os pensadores e psicólogos modernos que demonstraram grande interesse pelo Gnosticismo, certamente C. G. Jung merece destaque. Nos anos 1950, Jung foi fundamental para trazer atenção para a Biblioteca Gnóstica de Nag Hammadi, pois ele havia percebido que a visão gnóstica do mundo possui profunda relevância psicológica.

Quem decide compartilhar deste mesmo interesse e desta mesma visão de Jung sobre o Gnosticismo e sua relação com o psiquismo humano, logo é obrigado a deixar de vê-lo como criador de uma abordagem psicológica para enxergá-lo como uma espécie de tradutor do Gnosticismo para a linguagem da Psicologia.

Uma breve pesquisa revela que não faltam acadêmicos e especialistas que estejam familiarizados com os incríveis paralelos entre o pensamento Junguiano e a visão cósmica e psicológica dos antigos gnósticos. Enquanto alguns falam do primeiro como um gnosticismo psicológico, há quem se refira ao segundo como uma prefiguração das ideias Junguianas.

É possível que Jung tenha sintonizado as mesmas camadas profundas da psique que os gnósticos até hoje acessam, vislumbrando o encontro entre o consciente e o inconsciente como um evento psíquico profundamente transformador do ser humano e capaz de curar todas as suas dores e sofrimentos. Esse vislumbre se cristalizou em sua obra.

A essência do paralelo existente entre Gnosticismo e Psicologia Junguiana é explicado pelo próprio Jung, em seu livro “A Estrutura e Dinâmica do Eu”:

 

“A gnosis é, sem nenhuma dúvida, um conhecimento psicológico cujo conteúdo deriva do inconsciente. Atingiu suas percepções concentrando-se no “fator subjetivo”, que consiste empiricamente na influência demonstrável que o inconsciente coletivo exerce na mente consciente. Isso explicaria o espantoso paralelismo entre o simbolismo gnóstico e as descobertas da psicologia do inconsciente” (1979, p. 223).

 

Para entender objetivamente esta questão, precisamos estabelecer com clareza um fundamento: as leis e os princípios de nosso psiquismo são sempre os mesmos, não importa a época ou a cultura em que vivamos. Os gnósticos, há cerca de dois milênios, olharam para estas leis e princípios e construíram uma visão filosoficamente elaborada e complexa para compreender a Deus, a criação do Universo e do Homem, a situação do Homem diante deste Universo, de si próprio, de suas origens e de seu fim, e a maneira de superar dores e sofrimentos para chegar à felicidade.

Por sua vez Jung, nascido e criado no último quarto do século XIX em um ambiente protestante, formado em medicina e instruído pela psicanálise, olhou também para estas mesmas leis e princípios, tanto em seus pacientes como em si mesmo. Tomando as formas conceituais aprendidas em sua formação, especialmente a científica, desenvolveu teoria e prática que pretendiam explicar o inconsciente, o surgimento do consciente, o confronto entre ambos, e um caminho de desenvolvimento interior – chamado individuação – que consistia em uma integração psicológica fundamentada no encontro harmonioso entre o inconsciente e o consciente, que exige autoconhecimento profundo – Gnosis – e que conduz à extinção da ignorância e das doenças psíquicas, e à experiência da plenitude.

São dois olhares, separados pelo tempo e pelo espaço, para o mesmo fenômeno. São duas

concepções, distintas e semelhantes ao mesmo tempo, da maneira como podemos responder às angústias mais profundas do ser humano. Jung e os gnósticos são médicos da alma: entendem as dores e oferecem o tratamento para o sofrimento.

Giordano Cimadon é Psicólogo e Instrutor da Sociedade Gnóstica Internacional (SGI).

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Gnose vem do sânscrito Gnana e do grego gnôzis, que se latinizou como cognoscere, ou seja, conhecer, como nas palavras diagnóstico, prognóstico etc. Gnose, literalmente, quer dizer “conhecimento” ou “conhecimento superior”. Leia mais